quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Labirintite.

Escolheu tomar banho. Era cedo ainda, não era necessário tomar banho tão cedo. Mas decidiu que lavaria o cabelo e passaria o creme demoradamente. Respeitaria os 20 minutos indicados na embalagem.

Não precisava, o cabelo nem estava seco. Mas faria mesmo assim.

Não conseguia definir a música para o banho. A vermelha, para lembrar da emoção do fim de semana? A cinza, para voltar àqueles braços? Amarela, para esquecer de tudo aquilo? Flicts, para se lembrar d'Ela?

Saiu do quarto, pegou um copo d'água, molhou os lábios e a garganta por uns instantes.

Lembrou-se que dia 14 estava próximo. Faltava pouco tempo e reencontraria o espelho.

Fechou a janela para silenciar o barulho dos vizinhos.

Ficou ali, nua, suada, decidindo que música ouvir durante o banho. Ligou o ventilador.

Não estava doente, mas sentia febre. O corpo quente, amolecido. Seria tudo aquilo obra da expectativa? O tempo sempre passava mais lento do que ela gostaria. Lembrava-se das frases de um livro que lera há tempos.

Ainda precisava terminar de assistir o episódio do dia anterior. Prometeu que faria isso de noite. Esquecer-se-ia de noite. Ninguém a veria, nem ela mesma.

Não podia esperar mais nada daquele momento. Não esperava nitidez. Era engraçado, ousado até, está com aquelas cinco histórias em suas mãos. Duas ela precisava abandonar. Seria abandonada por essas duas. Mas uma terceira ela queria. As outras duas permaneceriam, não havia como abrir mão.

Tinha receio do próximo passo, e sabia que esse receio era o grande problema. Decidiu que não daria o próximo passo. Não podia ser um passo dela. Tentava se convencer de que era necessário voltar os olhos para si. Mas ela sempre fora dos outros.

Lembrou-se da ligação de dois dias atrás. Iria retornar e convidar a amiga para sair, ocuparia o tempo com ela na tentativa de abafar a vontade, virar momentaneamente os olhos para outra direção. Podia fazer isso, mas sempre optava por não.

Perdeu-se em seus pensamentos tantas vezes naquela tarde, que o tempo passava e o banho era esquecido. O corpo suado e a sensação de frio não lhe permitiam simplesmente abandonar a cama. Ficou diante da tela, olhando seu próprio reflexo.

"Preciso ir pra academia" - pensava. Mas, logo em seguida, o pensamento corria para outro lado.

Tentou fixar a atenção em algo que estava prestes a acontecer. Faltavam oito dias. E aquilo a tranquilizava. Sabia que não precisava ficar em casa, fechada em seus devaneios. Sabia que se quisesse encontraria os amigos. Veria a cor vermelha, falaria com Flicts, ria com Rosa, ficaria indignada com Verde. Desenharia planos e objetivos junto com Beje. Mas só queria Cinza.

De forma brusca, adiou novamente todas as decisões a serem tomadas. Bastava-lhe o banho. Era suficiente o barulho da água. "Danem-se as músicas" - pensou novamente.

O que sentia, ela queria acreditar, era labirintite!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Uma mescla, sem tamanho nem forma, de sentimentos!!

Por um lado a razão dizia: "Espera!". Do outro a emoção gritava: "Fala, fala, fala!". Essencialmente ela é uma garota de emoções afloradas, dada ao extremo do empírico; dessa vez venceu o teórico.

Deixou-se controlar pela razão e ficou ali, olhando fixamente pro nome no msn. Nada, nem mesmo o ar, ousava se mexer. Chego a crer que o relógio estivera parado, estagnado, durante todo o tempo.

De um lado um seriado pausado, do outro o msn, por trás o firefox com suas várias abas.

Optou, languidamente, pelas abas; digitou corretamente o nome. Convenhamos, não era difícil.

Parou em uma das respostas e clicou. Sorriso, seguido de frustração, seguido de curiosidade. Clicou no link: achou!

Os olhos sugavam as palavras. Umas pouco usuais até aquele instante.

Um após outro, após outro, após outro, tudo era lido e impregnado.

Ela conhecia bem as fórmulas necessárias para conter aquele grito que estava por sair. Mas permitia que o fôlego do grito se aproximasse. Fez uma pausa. Não era hora para o grito, o momento tinha que ser melhor pesado. E ela odiava isso.

Cedeu ao necessário. Não calou o grito, apenas permitiu que ele fosse adiado. Ou que pelo menos saísse abafado.

Estava, enfim, diante de algo maior! Confuso, diferente, completamente estranho ao mundano e ao casual ao qual habituara-se.

Sim, ali tinha uma chama pronta para queimar. A teoria e a experiencia lhe permitiam saber que o poço era fundo. Recuou.

Medo?! Sentimento real, porém desconhecido em si. Não era dessas garotas que sentem medo, nunca fora.

Cautela?! Receio?!

"Certeza!" - Diria ela! Era plena em extremo. Tudo era certeza. Fora isso, não o medo, o que a fizera parar. Consciente de que continuaria, mergulharia como em desespero no grito que sufocava. Tingiria-se de todas as manchas que ali eram sinalizadas.

Mas não tinha pressa. Dessa vez não!

"E ainda escreve bem!" - Foi tudo o que conseguiu pensar antes de parar!