Escolheu tomar banho. Era cedo ainda, não era necessário tomar banho tão cedo. Mas decidiu que lavaria o cabelo e passaria o creme demoradamente. Respeitaria os 20 minutos indicados na embalagem.
Não precisava, o cabelo nem estava seco. Mas faria mesmo assim.
Não conseguia definir a música para o banho. A vermelha, para lembrar da emoção do fim de semana? A cinza, para voltar àqueles braços? Amarela, para esquecer de tudo aquilo? Flicts, para se lembrar d'Ela?
Saiu do quarto, pegou um copo d'água, molhou os lábios e a garganta por uns instantes.
Lembrou-se que dia 14 estava próximo. Faltava pouco tempo e reencontraria o espelho.
Fechou a janela para silenciar o barulho dos vizinhos.
Ficou ali, nua, suada, decidindo que música ouvir durante o banho. Ligou o ventilador.
Não estava doente, mas sentia febre. O corpo quente, amolecido. Seria tudo aquilo obra da expectativa? O tempo sempre passava mais lento do que ela gostaria. Lembrava-se das frases de um livro que lera há tempos.
Ainda precisava terminar de assistir o episódio do dia anterior. Prometeu que faria isso de noite. Esquecer-se-ia de noite. Ninguém a veria, nem ela mesma.
Não podia esperar mais nada daquele momento. Não esperava nitidez. Era engraçado, ousado até, está com aquelas cinco histórias em suas mãos. Duas ela precisava abandonar. Seria abandonada por essas duas. Mas uma terceira ela queria. As outras duas permaneceriam, não havia como abrir mão.
Tinha receio do próximo passo, e sabia que esse receio era o grande problema. Decidiu que não daria o próximo passo. Não podia ser um passo dela. Tentava se convencer de que era necessário voltar os olhos para si. Mas ela sempre fora dos outros.
Lembrou-se da ligação de dois dias atrás. Iria retornar e convidar a amiga para sair, ocuparia o tempo com ela na tentativa de abafar a vontade, virar momentaneamente os olhos para outra direção. Podia fazer isso, mas sempre optava por não.
Perdeu-se em seus pensamentos tantas vezes naquela tarde, que o tempo passava e o banho era esquecido. O corpo suado e a sensação de frio não lhe permitiam simplesmente abandonar a cama. Ficou diante da tela, olhando seu próprio reflexo.
"Preciso ir pra academia" - pensava. Mas, logo em seguida, o pensamento corria para outro lado.
Tentou fixar a atenção em algo que estava prestes a acontecer. Faltavam oito dias. E aquilo a tranquilizava. Sabia que não precisava ficar em casa, fechada em seus devaneios. Sabia que se quisesse encontraria os amigos. Veria a cor vermelha, falaria com Flicts, ria com Rosa, ficaria indignada com Verde. Desenharia planos e objetivos junto com Beje. Mas só queria Cinza.
De forma brusca, adiou novamente todas as decisões a serem tomadas. Bastava-lhe o banho. Era suficiente o barulho da água. "Danem-se as músicas" - pensou novamente.
O que sentia, ela queria acreditar, era labirintite!
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